Editorial

DE DESCOBERTAS HISTÓRICAS AO CULTIVO DA UVA

Por Anderson Dias

“A DISCIPLINA É A PARTE MAIS IMPORTANTE DO SUCESSO”. A frase é do famoso escritor e comediante norte-americano Truman Capote, mas certamente teria o consentimento do hematologista Gastão Rosenfeld (1912-1990). Nascido em Budapeste, capital da Hungria, o médico trouxe ao Brasil, além de sua competência na área hematológica, a disciplina dos povos germânicos.

Conhecido pela descoberta da bradicinina, pelos muitos trabalhos científicos e por ter sido fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da ciência (SBPC), Rosenfeld veio para o Brasil aos três meses de idade. Filho de pai húngaro e mãe francesa, foi criado no Rio de Janeiro e aos 18 anos mudou-se para São Paulo. Já trabalhando em um laboratório como assistente técnico, gostou da área, e acabou se transformando em sócio dessa entidade.

Aos 21 anos, passou no vestibular da escola paulista de medicina da universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), na primeira turma daquela instituição. Simultaneamente à carreira no setor privado, começou a se envolver também com a área de pesquisa. Logo, resolveu abrir mão de seus trabalhos no laboratório e no atendimento clínico de hematologia para se dedicar integralmente à pesquisa científica.

“A maior lição que ele deixou foi o rigor técnico. tolerância zero com relação a desvios, erros e imperfeições. Ele tinha muito comprometimento com o que fazia. não uma visão punitiva, mas uma cultura de responsabilidade individual para obter a colaboração de todos ao seu redor”, opinou Luiz Gastão Rosenfeld, terceiro dos seis filhos do homenageado do Quem Foi desta edição de Hemo em revista. O disciplinado médico teve também 12 netos.

Quando tinha aproximadamente 12 anos, Luiz Rosenfeld começou a frequentar o laboratório junto de seu pai. “A primeira análise de sangue que fiz foi sentado em seu colo, olhando para o microscópio. comecei a trabalhar com ele aos 17 anos. Não era raro meu pai pedir para que eu e todos os funcionários fôssemos à casa de pacientes para colher mais sangue em caso de erro ou algum tipo de imperfeição”, contou.

“Era um homem carinhoso em casa, mas rígido. Não nos controlava nem pajeava, mas em alguns momentos tinha uma intervenção mais forte. Minha mãe é quem ficava mais responsável pelos detalhes do dia a dia”, explicou ele que também é diretor de Relações Institucionais da Diagnósticos da América (Dasa), membro da mesa diretora do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente do Conselho  Do Centro  De Hematologia De São Paulo (CHSP).

A descoberta da bradicinina

A área de pesquisa realmente sempre foi a grande paixão de Gastão Rosenfeld. Em 1945, passou a atuar integralmente nisso, quando iniciou suas atividades no Instituto Butantan, em São Paulo.  Com sua atuação constante em moléstias tropicais e infecciosas, Rosenfeld passou a comandar uma das três instituições que pesquisavam a área de venenos de animais e seus efeitos no corpo humano. Além do Butantan, o Instituto Biológico e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) eram os únicos a investir em pesquisas nesse assunto.

Nesse trabalho, Rosenfeld, em conjunto com seus colegas, descobriu a bradicinina em experiências com venenos de animais. “Essa é considerada a descoberta mais importante da biologia brasileira. Foi marcante, pois auxiliou no desenvolvimento de controle de ritmo cardíaco em diversos medicamentos e procedimentos posteriores”, esclareceu Luiz Rosenfeld.

Vale lembrar que a descoberta veio por meio do trabalho também de Maurício da Rocha e Silva, do Instituto Biológico e Wilson Teixeira Beraldo, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Silva foi quem assinou a comunicação sobre essa descoberta, em 1949, na Revista Ciência e Cultura, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. O artigo foi assinado também por Rosenfeld e Beraldo.

A descoberta da bradicinina em si ocorreu no departamento de Bioquímica e Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, em 1948. Rosenfeld levou do Butantan amostras do veneno da cobra jararaca, que foi misturado a sangue de cachorro e testado em intestino isolado de porquinhos-da-índia.

Os três cientistas pretendiam testar a histamina, substância orgânica que se encontra nos tecidos animais e estimula as secreções salivar, gástrica e pancreática, atuando como dilatadora dos capilares. Esta é frequente em veneno de cobras, então aguardavam uma contração da musculatura lisa. Porém, o que ocorreu foi o contrário. A contração ocorria de forma lenta, mas, consistente, mantida por alguns minutos. Então, os três autores chegaram à conclusão de que os venenos de serpentes são capazes de liberar do plasma um fator para contrair o intestino isolado, além de causar hipotensão.

Vida científica

A paixão de Gastão Rosenfeld pela área científica rendeu importantes trabalhos não apenas ao determinado hematologista, mas também para a medicina brasileira em geral. Exemplo disso é a criação do Hospital Vital Brazil, no Instituto Butantan, especializado no atendimento a acidentes com animais peçonhentos. Curiosamente, esse foi o primeiro hospital do País a contar com um heliponto, o que ajudava no transporte de feridos de todo o estado de São Paulo.

O húngaro naturalizado brasileiro teve 185 trabalhos publicados, foi um dos fundadores da SBPC, onde foi secretário-geral por dez gestões e também coordenador de pesquisas do conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além da marcante descoberta da bradicinina, o hematologista teve diversos trabalhos ligados ao efeito de venenos dos animais no corpo humano, ou seja, na coagulação do sangue. Por ela que os efeitos se dão, desde febres, dores, espasmos, até a morte.

Algumas toxinas neurológicas, metodologias laboratoriais, padronizações em nível internacional, moléstias infecciosas e trabalho com a doença de Chagas, sem contar a direção de sociedades científicas, como a então Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (antecessora da ABHH) foram pontos pesquisados e teorizados por Rosenfeld.

O conhecimento na área transformou o profissional em um ‘papagaio’, de acordo com seu filho, Luiz Rosenfeld. “Após a descoberta da bradicinina e o trabalho de referência no Instituto Butantan, ele ministrou muitas palestras. sempre, em todo auditório, tem alguém que gosta e quer esse ensinamento em outros locais. Quando percebeu, ele estava falando a mesma coisa diversas vezes”, explicou.

 

Atividades diversas

Apesar de ser um homem ocupado com o trabalho cotidiano em laboratório, além das diversas atividades em pesquisa, Rosenfeld costumava se distrair com obrigações fora da área médica. O médico hematologista gostava de recarregar as energias no contato com a natureza, sempre no interior do Brasil.

Curioso, Rosenfeld se tornou fazendeiro em 1943. No interior do Paraná, mais precisamente na cidade de Bom Sucesso (a 450 quilômetros da capital Curitiba), adquiriu 100 alqueires (medida utilizada para terras rurais. um alqueire corresponde a 24.200 metros quadrados, mas os números podem variar de acordo com o local do Brasil).

Para chegar até suas terras, o médico encarava uma verdadeira maratona. Rosenfeld ia de São Paulo até Londrina (no norte do Paraná) de trem. O percurso de 540 quilômetros, com a tecnologia da época, chegava a levar 10 horas. Depois, utilizava uma jardineira (tipo de ônibus resistente a estradas de terra) até Apucarana e, após isso, andava a cavalo um dia para finalmente adentrar sua propriedade.

Após realizar todo esse trajeto uma vez por ano e se corresponder constantemente com um administrador que contratou para cuidar da fazenda, finalmente conseguiu abrir suas terras para o cultivo de café. Posteriormente, adquiriu uma gleba de mil alqueires no Vale do Paranavaí, também no Paraná (na divisa com o estado de São Paulo, a mais de 500 quilômetros da capital Curitiba).

Apaixonado pelo setor agropecuário, Rosenfeld decidiu vender suas propriedades no estado e adquirir 200 alqueires de terra em Jundiaí, a 60 quilômetros de São Paulo. “Quando jovem, me envolvi na administração dessa fazenda, mas com o início de minhas atividades profissionais, como mais ninguém da família se interessou, meu pai optou por vender também esse patrimônio”, contou Luiz.

Para quem considera incomum um médico que atuava com café, banana, uva e até com pecuária, a característica parece ser um traço familiar. “Eu mesmo tenho um laticínio e meus irmãos sempre investem em áreas fora de suas profissões. Considero o hábito antieconômico, mas adequado para o equilíbrio mental”, concluiu Luiz Rosenfeld.

 

“A BRADICININA FOI A DESCOBERTA MAIS IMPORTANTE DA BIOLOGIA BRASILEIRA”
Luiz Rosenfeld, sobre um dos principais feitos de Gastão Rosenfeld 

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